Atleta Tania Sakanaka é um dos destaques do taiji nacional

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Todo atleta de wushu tem certa admiração (ou fixação) pela China. Busca aprender o idioma, já provou a comida típica, decora o quarto com objetos chineses, estuda sobre a cultura, costumes e geografia do país, tudo que vem de lá interessa! Ter uma foto na Muralha da China, poder passar uma temporada em Beijing, Shanghai ou Hong Kong é o sonho de muitos, poder treinar em alguma universidade então, nem se fala!

 

A CBKW conversou com um dos destaques do taiji nacional, a atleta da Seleção Brasileira, Tania Sakanaka. Ela fala sobre seus sete anos morando, estudando e treinando no país de origem do wushu e conta sobre como começou a praticar a modalidade e sobre gratidão, principalmente ao pai (o Professor Paulo Sakanaka, diretor técnico de internos da CBKW).

 

CBKW – Por que e quando começou a treinar? Você já começou no taijiquan? 

Tania Sakanaka - Comecei a treinar taijiquan em 1995, com o Prof. Marcelo Martinelli, no curso de extensão oferecido pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Foi meu primeiro contato com artes marciais. Meu pai (Professor Paulo Sakanaka, diretor técnico de internos da CBKW) já treinava há alguns anos e resolveu puxar toda a família para treinar também. Ótimo, agradeço muito a ele por isso!

 

Você já praticou outras modalidades do wushu, como tradicional ou moderno? 

Tania - Treinei taijiquan tradicional com os professores Tian Qiuxin, estilo Chen Tradicional de Beijing, Marcelo Martinelli, estilo Yang 128 Tradicional e Yang Zengduo e Yang Jun, estilo Yang Tradicional. Já no taijiquan moderno, tive como professores Zong Weijie, do estilo Wu Quan Moderno, Wu Jian Tradicional e Opcional, Huang Kang Hui, Chen 56 e Tuishou. Lin Beisheng me ensinou 42 Quan e Jian e Li Yanjun, 42 Quan, 42 Jian e Opcional. Também treinei Tongbei quan e Jianshu com Li Yanjun, Xingyiquan com Li Qiaoling e Shaolin do Norte com Marcus Vinicius.

 

Você sempre treinou com seu pai? Como é a relação de vocês durante o treinamento? 

Tania - É incrível ter o meu pai como companheiro de treino. Sempre treinei com ele, desde o início. É bom porque discutimos tudo muito abertamente. O fato de meu pai ser cientista é ótimo, ele é questionador, quer sempre melhorar e treinar.  Existem pessoas que crescem e ficam cada vez mais jovens, o espírito do meu pai é assim. Cresce e vibra, aprende e ensina, tudo ao mesmo tempo. Ele é uma das minhas maiores inspirações no mundo do wushu.

 

Você já participou de campeonatos nacionais? Quais foram seus resultados?

Tania - Competi em vários campeonatos nacionais. Fui campeã brasileira em várias categorias em 2002, 2003 e 2006.

 

E os torneios internacionais? Quais foram seus resultados?

Tania - Comecei a participar de campeonatos internacionais em 2003. Participei de quatro Mundiais, quatro Panamericanos (campeã de Taijiquan em 2010 e 2006, campeã de Taijijian em 2010, 2008 e 2006, vice-campeã e terceiro lugar em 2004), dois Sulamericanos (campeã de taijiquan e taijijian em 2011, vice-campeã de taijijian em 2009) e dois Festivais Mundiais Tradicionais (primeira colocação, ambas as categorias, em 2008 e 2006). Também tive uma participação no Festival Internacional de Hong Kong (campeã e vice-campeã), onde recebi um prêmio em dinheiro (que nem pagou metade dos gastos para participar do campeonato, mas é raridade no wushu e me deixou feliz por ter tido a melhor colocação na categoria!). Competi entre chineses na Zhe Shang Bei, 2008, de Beijing (campeã de Estilo Chen Tradicional e quarto lugar em Taijijian 42) e no Campeonato de Wushu entre Universidades de Beijing, 2008 (quarto lugar em Taijijian Opcional).

 

Por que você decidiu começar a competir? Desde quando você está na Seleção Brasileira? Qual é a sensação de representar o país?

Tania - Comecei a competir em 2002, no susto, por diversão e gostei da brincadeira. Continuo brincando até hoje! Faço parte da Seleção Brasileira desde novembro de 2003, quando representei o país no Mundial de Macau. Eu sempre falo que se não fosse atleta de taijiquan não seria atleta de nada, pois onde já se viu atleta que é mediano em tudo ser atleta nacional? Tenho altura mediana, peso mediano e velocidade mediana. Adoro o wushu porque é tão democrático e exigente ao mesmo tempo. Além disso é irônico, ele fala assim: “todos podem treinar wushu, até o medianos! Vai mediano, vai ser atleta de wushu! Só não se iluda, porque em wushu até ser mediano é difícil. Vai ter que treinar muito!  Depois que treinar muito vai continuar com uma técnica ruim. Quando treinar mais ainda, talvez fique… mediano!” A única exigência do wushu é ter perseverança, isso eu tenho de sobra! Outro requisito é ter a sorte de encontrar bons professores. Tive muita sorte, encontrei ótimos tanto no Brasil como na China. Terceiro requisito: ser sensato no treinamento para não lesionar ou lesionar o menos possível.

Fazer parte da seleção é algo que veio junto com isso. Adoro! É ótimo fazer parte de um grupo onde todos querem treinar e fazem com muito amor. É ótimo representar o próprio país e lutar por ele. É ótimo ver a própria bandeira ser hasteada e o hino ser cantado por conta dos próprios esforços. Porém, fazer parte da seleção não é o objetivo final de ninguém. É um ótimo apoio para melhorar minha técnica e sempre vou ser grata a todos que me apoiaram até agora, pais, amigos, professores, atletas, dirigentes. Mas não vou me iludir e dizer que isso basta. Ainda estou no início de minha carreira como profissional de wushu, tenho muito a melhorar como pessoa e como praticante porque o wushu é universal. Quando os chineses perceberem que o wushu pertence à humanidade, então todas as nacionalidades vão cair por terra e representar o próprio país vai ser uma etapa apenas inicial. A partir daí o wushu vai crescer exponencialmente.

 

Por que e quando você se mudou para a China? Quais eram suas atividades diárias por lá?

Tania - A minha temporada na China durou de setembro de 2004 a outubro de 2011, fui para estudar e treinar. Fiz o curso de Mestrado em Esportes Tradicionais Nacionais pela Universidade de Esporte de Beijing. Tinha sido campeã brasileira e percebi que se ficasse no Brasil, provavelmente, pararia de evoluir como praticante de Wushu. A minha atividade diária consistia em treinar de manhã e a tarde, estudando nos intervalos. Não posso reclamar de nada, tive o apoio incondicional dos meus pais, tanto psicologicamente quanto financeiramente. Foi uma grande experiência, incrível!

É na China que eu vou encontrar o professor que vai olhar para mim, ver a minha técnica e dizer: essa daí até que tem esperança! E você vai sair sorrindo, porque aquilo foi um grande elogio. É na China que eu vou encontrar colegas do mundo inteiro, todos treinando wushu do seu ponto de vista e da sua forma para chegar ao mesmo objetivo. É na China que eu vou encontrar professores incríveis de todos os estilos possíveis e vou poder ir ao parque treinar e trocar uma idéia.

 

Como funcionou seu treinamento à distância?

Tania - Tive a sorte de encontrar bons treinadores e professores na China. Não tive um treinamento à distância, eu fui direto à fonte.  Para treinar a técnica do movimento é o melhor lugar. Para ser atleta, porém, é preciso cautela ao treinar na China. O treinamento lá é programado para atletas chineses e a condição física é muito diferente.

 

Você morava sozinha? Como foi ficar longe de casa e da família? Vale a pena o sacrifício?

Tania - Enquanto o espírito está livre, feliz e crescendo, sempre vai valer a pena qualquer sacrifício. Não vale se não for assim. Na verdade, eu nunca enxerguei o fato de estar longe de tudo um sacrifício. Temos que abrir mão de nossos apegos para seguir fazendo o que deve ser feito. Nunca me arrependi. Foi apenas, no final da temporada, quando voltei definitivamente ao Ocidente, que eu percebi o quanto a comida do Brasil era boa, o quanto era aconchegante e gostoso estar em casa, o quanto o ar que respiramos no Brasil é melhor do que em Beijing. Fiquei me perguntando, como aguentei aquele cinza todo durante sete anos? É desconfortável, é inóspito, as pessoas não entendem o que falamos, a comida é temperada demais, as pessoas trombam na rua, quase tive um colapso por stress, mas e daí? Aguentei tudo e feliz, porque era onde deveria estar naquele momento. Sempre fui muito feliz no Brasil e também fui muito feliz na China. Fiz amigos inesquecíveis por lá.

Para falar a verdade, em minha opinião, os brasileiros vão muito pouco para a China treinar. É mais fácil do que parece. As pessoas falam que foi fácil para mim porque tive o apoio financeiro dos meus pais. Eu tive a chance e fui. Não tive sorte quando não ganhei na loteria, não tive sorte quando lesionei o tornozelo logo antes das Olimpíadas, não tive sorte quando me inscreveram na categoria masculina em pleno campeonato mundial. Aliás, quase parei de treinar quando isto aconteceu, mas percebi que os erros e fraquezas dos outros nunca vão me fazer parar, em nenhum aspecto da minha vida. No meio de tanto azar, tive sorte em ter pais que me apoiaram financeiramente para ir treinar na China. O azar ficou pequeno no meio de tudo o que fiz por lá. E é assim que a sorte se constrói. Sorte a gente cria, com suor e perseverança.

Se tiver a chance de ir treinar na China, vá. Mas não deixe de treinar com o que encontrar por lá. 90% das pessoas que eu conheço – que vão para a China treinar – param ou se envolvem com outras coisas, como ensinar inglês ou passear. Lá é fácil se perder, porque a China é um turbilhão de coisas novas. É preciso manter o foco. Crescemos de qualquer forma, estando dentro ou fora do país. Mas um turbilhão de estímulos nos estimula mais e passamos a pensar diferente. No meio de tanta informação nova, é difícil manter as prioridades. Mas, se for para a China, tente manter o foco. Vai valer a pena.

 

O que o taiji representa para você, para sua vida?

Tania - O taijiquan foi um escancarar de portas, em muitos sentidos. Tanto para que eu crescesse como pessoa como profissionalmente. Só não cresci financeiramente (risos). Quanto mais eu vivo no Ocidente, mais eu acho que valeu a pena estar no Oriente esse tempo todo, treinando. Já me falaram que o que a gente treina ninguém tira da gente. É nosso para sempre. Cola ao nosso corpo e se transforma em característica nossa.

Eu não digo que todos deveriam treinar taijiquan porque cada um tem o seu instrumento, mas acredito que muito mais gente poderia treinar e aprender muita coisa com ele. O taijiquan é um esporte completo. Melhorou minha saúde física e mental, meu condicionamento físico, coordenação motora, controle motor e auto-estima. Além de ser uma arte marcial muito interessante e desafiante.

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